Na tentativa de atacar o evolucionismo enquanto teoria científica, um argumento – ou melhor dizendo, um apelo – muito  comum entre os criacionistas é fazer com que se imagine estar diante de uma rocha ou objeto inanimado qualquer e se pergunte: Qual a probabilidade de esta rocha tornar-se orgânica? Ou mesmo de que, a partir de uma “sopa primordial”, sejam misturados, completamente ao acaso, diversos elementos básicos de maneira que formem proteínas, DNA, células, seres dotados de múltiplas células? 

Deriva desse raciocínio a analogia – ou seria zombaria? – de supor a atual complexidade das estruturas da vida como oriunda do acaso, seria o mesmo que imaginar que um ou mais macacos possam teclar aleatoriamente em uma máquina de escrever e, por puro acaso, ter como resultado uma obra de Shakespeare.

Na verdade, não precisamos de um texto imenso como Hamlet para demonstrar o quão improvável isso parece matematicamente. Basta acolhermos uma frase simples como COGITOERGOSUM – O “Penso, logo sou” de Descartes – , que possui treze letras.

Separemos então treze espaços vazios:
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _
Em seguida, nos perguntemos: Quantas são as possíveis combinações que envolvem 13 letras? A resposta: O número de letras do alfabeto elevado à potência de número igual ao número de posições dispostas. Isto é 2613, um número superior ao número de segundos que se passaram nos últimos 4,5 bilhões de anos. Se dispuséssemos um milhão de macacos, cada um deles “chutando” uma frase de treze letras de maneira aleatória por segundo, o processo poderia levar cerca de 80 mil anos até que se chegasse na frase desejada. 

Até aqui, parece tratar-se de um forte argumento para demonstrar a improbabilidade matemática da seleção natural como originadora das espécies. Ainda mais considerando-se que o número de variáveis envolvidos nos processos de formação das espécies é muito superior à treze letras. O problema é justo esse: Os criacionistas costumam parar por aqui, julgando essa demonstração matemática como suficiente. Porém, não é assim que a seleção natural age.

Levando em consideração que cada uma das letras dessa frase constitui uma característica gerada aleatoriamente, mas que tenha se constituído uma vantagem para a sobrevivência do ser em questão em relação ao ambiente em que ele se encontra, temos um modelo em que, quando atingida a primeira letra, ela se manteria constante, por simbolizar uma característica que ajuda na sobrevivência e reprodução do ser em questão, aumentando as chances deste gerar descendentes que carreguem adiante a característica em questão.

Em nosso experimento hipotético, isto se manifesta da seguinte forma: Um macaco começa a tentar “adivinhar” a frase desejada letra por letra. Por “adivinhar” uma letra, simbolizamos aqui o momento em que, na teoria evolucionista, uma característica aleatória se consolide pelo fato de prover algum tipo de vantagem na luta pela sobrevivência. Assim, esta letra persistirá em sua posição, representando a forma como as características vantajosas são transmitidas aos descendentes, persistindo geração após geração. Assim, uma vez “acertada” uma letra, os macacos passariam a se dedicar apenas aos espaços restantes. 

A sequência de tentativa e erro se manteria com um padrão semelhante ao disposto abaixo:
C_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _
CO_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _
COG_ _ _ _ _ _ _ _ _ _
COGI_ _ _ _ _ _ _ _ _
COGIT_ _ _ _ _ _ _ _
COGITO_ _ _ _ _ _ _
COGITOE_ _ _ _ _ _
COGITOER_ _ _ _ _
COGITOERG_ _ _ _
COGITOERGO_ _ _
COGITOERGOS_ _
COGITOERGOSU_
COGITOERGOSUM
Em 1984, o cientista Richard Hardison da Glendall College escreveu um programa de computador que gerava frases de forma randômica[1], porém, preservando as letras que se mostrassem “corretas”, simulando assim a forma de agir da seleção natural. Na ocasião, o programa usou a frase “TOBEORNOTTOBE”, de também 13 letras. Como resultado, o programa levou 339 iterações ou “tentativas” para completar a frase, o que durou menos de 90 segundos. No mesmo padrão de velocidade, o computador seria capaz de reconstruir Hamlet, de Shakespeare em cerca de quatro dias e meio. 

A diferença parece atordoante. O que parecia ser inconcebivelmente improvável pode ser atingido em apenas 339 iterações! Resta agora saber o que tal processo seria capaz de realizar em alguns bilhões de anos.

Embora Richard Hardison tenha estimado em quatro dias e meio o período de tempo necessário para que seu programa de computador reproduzisse uma obra completa de Shakespeare, o que realmente importa neste caso não é o período de tempo estimado, que obviamente seria muito menor com a atual potência dos computadores, mas sim imaginar qual seria o número de tentativas necessárias para gerar a obra completa, o que independe da velocidade com que cada tentativa é processada. Afinal, quanto trabalho teria um macaco que se dispusesse a reproduzir aleatoriamente o texto integral de Hamlet?

Para reescrever Hamlet em inglês, não se poderia utilizar apenas as letras do alfabeto pois seria necessário também o uso de espaços em branco, aspas, colchetes, barras, pontos de exclamação, interrogação e outros. Além claro, do uso de letras maiúsculas e minúsculas, pois “A” é diferente de “a”. Assim, ao invés de 26 opções, calculei 79 opções de caracteres. São eles:

0123456789abcdefghijklmnopqrstuvwxyzABCDEFGHIJKLMNOPQRSTUVWXYZ.,;?!:’-” \/\n\t[]&

Um esclarecimento importante:
Incluí também dois caracteres que podem soar estranhos a quem não está familiarizado com certos conceitos da ciência da computação, mas que serão necessários para o experimento a seguir: O “\n” e o “\t”. São símbolos que não aparecem quando editamos um texto em computadores, mas que estão lá, marcando o ponto em que uma frase deve ser quebrada para que uma nova linha comece (“\n”) e marcando o espaço das tabulações, como quando pressionamos a tecla TAB para mover o texto mais à direita. 

Resta agora saber quantos caracteres possui a versão integral do texto de Hamlet. Para responder a isso, utilizei uma versão online[2] de onde contabilizei 202.070 caracteres, sendo que cada um deles pode ser qualquer dos 79 caracteres acima especificados. Temos assim uma gama de  79202070 diferentes opções! Para deixar clara a enormidade deste número, basta lembrar que alguns cientistas especulam que haja cerca de 1080 átomos no universo conhecido.

Para estimar o número de tentativas necessárias, desenvolvi eu mesmo um programa de computador que simula o trabalho do pobre macaquinho[3]. Curiosos com conhecimentos de ciências da computação poderão fazer o download do código fonte do programa no link ao final do texto e verificar por si mesmos o algoritmo utilizado.

O resultado?

Rodei o programa dez vezes (ele leva em média 0.680 segundos para completar todo o processo de reconstrução da obra de Shakespeare) e obtive uma média de 16.155.784 (dezesseis milhões, cento e cinquenta e cinco mil e setecentos e oitenta e quatro) tentativas. Trata-se de uma fração quase infinitesimal das 79202070 possibilidades! Esses números dão a dica: O acúmulo, mesmo cego, tem um poder muito maior do que a intuição concebe. Que o digam os investidores de longo prazo e os evolucionistas!

Dirão que isto não prova o evolucionismo como verdadeiro. Ora, nem era este o objetivo, e sim desbancar a idéia de que o evolucionismo pode ser desbancado por uma simples concepção errônea das probabilidades envolvidas. Mesmo assim, ainda há quem possa julgar as mais de dezesseis milhões de iterações necessárias para gerar Hamlet um número excessivo. Trata-se de outro equívoco. Por vezes esquecemos que, por mais improvável que seja ganhar na mega sena, alguém sempre ganha!

Antes de se conhecer o vencedor, cada um dos participantes tem uma probabilidade incrivelmente baixa de tornar-se o vencedor. Porém, depois que o vencedor é conhecido, você agora tem o resultado, e não importa qual seja ele, a probabilidade que esse jogador tinha de vencer era incrivelmente baixa. Assim, não me parece lógico observar um evento ou sequência de eventos após estes terem acontecido e julgá-los como falsos apenas porque a probabilidade de eles acontecerem no futuro é astronomicamente baixa. 

A partir daí, pode-se perceber claramente o problema em analisar a história proposta pela evolução do princípio para o fim: Quando olhando para o futuro, toda e qualquer possibilidade parece impossível, de tão improvável! E quando partimos de um ponto passado e pensamos “como chegar desse estágio para o próximo” o que estamos fazendo é, em essência, olhar para o “futuro”, ou mais especificamente, olhando para o passado com os olhos do futuro. 

Caso sigamos essa linha de pensamento até sua última instância (o que deve ser feito com todo e qualquer argumento, pois se é válido, deve ser válido até o fim), ela nos permitirá afirmar que todo e qualquer evento passado é falso apenas por ser astronomicamente improvável de acontecer, assim como seria qualquer outra possibilidade. Não parece muito sensato, pois mesmo assim, as coisas acontecem. 

Por fim, está claro que o ponto de vista proposto pela evolução não é do mero acaso, mas sim do acúmulo de acasos. Para se ter um exemplo, basta olhar para sua vida hoje e para como ela era há 10 anos para perceber o poder do acúmulo de minúsculos eventos ao longo do tempo. Podemos também utilizar as girafas como exemplo. Se observarmos o processo evolutivo de um ponto passado e em direção ao futuro, nos perguntaremos como a girafa, ou mesmo um processo “cego e guiado pelo acaso” como a evolução “sabia” que um pescoço cada vez maior lhe seria vantajoso? A própria pergunta faz com que tendamos a inserir implicitamente um propósito, uma finalidade oculta em todo o processo.

Mas se ao invés, olharmos a partir do futuro para o passado, podemos perceber o que há de comum entre todas as girafas que sobrevivem. Por exemplo: elas tem pescoços longos! Sobrevivendo, tem maiores chances de passar seus genes adiante para os herdeiros, tornando cada vez mais provável que, entre todas as girafas, geração após geração, os genes que geram um longo pescoço se mantenham lá, estáveis. Assim, podemos olhar para trás e nos perguntarmos: Qual a probabilidade de que isso tudo aconteceu por acaso? Nesses casos, cabe também uma outra pergunta: Dentre todos os possíveis passados que poderiam ter sido ao invés do que foi, haveria qualquer um cuja probabilidade de acontecer seria maior do que foi a deste? 

[1] Conforme http://surge.ods.org/listarc/20020621.HTM acessado pela última vez em 13/05/2011.

[2] Versão online de Hamlet disponível no endereço http://shakespeare.mit.edu/hamlet/full.html

[3] Código fonte disponível aqui.

Carlos H.

Empreendedor metido a filósofo ou filósofo metido a empreendedor, dependendo da hora. Apaixonado por filosofia, história, política e sociologia, usa este site para cristalizar idéias e pensamentos.

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