Deriva desse raciocínio a analogia – ou seria zombaria? – de supor a atual complexidade das estruturas da vida como oriunda do acaso, seria o mesmo que imaginar que um ou mais macacos possam teclar aleatoriamente em uma máquina de escrever e, por puro acaso, ter como resultado uma obra de Shakespeare.
Na verdade, não precisamos de um texto imenso como Hamlet para demonstrar o quão improvável isso parece matematicamente. Basta acolhermos uma frase simples como COGITOERGOSUM – O “Penso, logo sou” de Descartes – , que possui treze letras.
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Até aqui, parece tratar-se de um forte argumento para demonstrar a improbabilidade matemática da seleção natural como originadora das espécies. Ainda mais considerando-se que o número de variáveis envolvidos nos processos de formação das espécies é muito superior à treze letras. O problema é justo esse: Os criacionistas costumam parar por aqui, julgando essa demonstração matemática como suficiente. Porém, não é assim que a seleção natural age.
Levando em consideração que cada uma das letras dessa frase constitui uma característica gerada aleatoriamente, mas que tenha se constituído uma vantagem para a sobrevivência do ser em questão em relação ao ambiente em que ele se encontra, temos um modelo em que, quando atingida a primeira letra, ela se manteria constante, por simbolizar uma característica que ajuda na sobrevivência e reprodução do ser em questão, aumentando as chances deste gerar descendentes que carreguem adiante a característica em questão.
Em nosso experimento hipotético, isto se manifesta da seguinte forma: Um macaco começa a tentar “adivinhar” a frase desejada letra por letra. Por “adivinhar” uma letra, simbolizamos aqui o momento em que, na teoria evolucionista, uma característica aleatória se consolide pelo fato de prover algum tipo de vantagem na luta pela sobrevivência. Assim, esta letra persistirá em sua posição, representando a forma como as características vantajosas são transmitidas aos descendentes, persistindo geração após geração. Assim, uma vez “acertada” uma letra, os macacos passariam a se dedicar apenas aos espaços restantes.
C_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _CO_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _COG_ _ _ _ _ _ _ _ _ _COGI_ _ _ _ _ _ _ _ _COGIT_ _ _ _ _ _ _ _COGITO_ _ _ _ _ _ _COGITOE_ _ _ _ _ _COGITOER_ _ _ _ _COGITOERG_ _ _ _COGITOERGO_ _ _COGITOERGOS_ _COGITOERGOSU_COGITOERGOSUM
A diferença parece atordoante. O que parecia ser inconcebivelmente improvável pode ser atingido em apenas 339 iterações! Resta agora saber o que tal processo seria capaz de realizar em alguns bilhões de anos.
Embora Richard Hardison tenha estimado em quatro dias e meio o período de tempo necessário para que seu programa de computador reproduzisse uma obra completa de Shakespeare, o que realmente importa neste caso não é o período de tempo estimado, que obviamente seria muito menor com a atual potência dos computadores, mas sim imaginar qual seria o número de tentativas necessárias para gerar a obra completa, o que independe da velocidade com que cada tentativa é processada. Afinal, quanto trabalho teria um macaco que se dispusesse a reproduzir aleatoriamente o texto integral de Hamlet?
Para reescrever Hamlet em inglês, não se poderia utilizar apenas as letras do alfabeto pois seria necessário também o uso de espaços em branco, aspas, colchetes, barras, pontos de exclamação, interrogação e outros. Além claro, do uso de letras maiúsculas e minúsculas, pois “A” é diferente de “a”. Assim, ao invés de 26 opções, calculei 79 opções de caracteres. São eles:
0123456789abcdefghijklmnopqrstuvwxyzABCDEFGHIJKLMNOPQRSTUVWXYZ.,;?!:’-” \/\n\t[]&
Um esclarecimento importante: Incluí também dois caracteres que podem soar estranhos a quem não está familiarizado com certos conceitos da ciência da computação, mas que serão necessários para o experimento a seguir: O “\n” e o “\t”. São símbolos que não aparecem quando editamos um texto em computadores, mas que estão lá, marcando o ponto em que uma frase deve ser quebrada para que uma nova linha comece (“\n”) e marcando o espaço das tabulações, como quando pressionamos a tecla TAB para mover o texto mais à direita. Resta agora saber quantos caracteres possui a versão integral do texto de Hamlet. Para responder a isso, utilizei uma versão online[2] de onde contabilizei 202.070 caracteres, sendo que cada um deles pode ser qualquer dos 79 caracteres acima especificados. Temos assim uma gama de 79202070 diferentes opções! Para deixar clara a enormidade deste número, basta lembrar que alguns cientistas especulam que haja cerca de 1080 átomos no universo conhecido.
Para estimar o número de tentativas necessárias, desenvolvi eu mesmo um programa de computador que simula o trabalho do pobre macaquinho[3]. Curiosos com conhecimentos de ciências da computação poderão fazer o download do código fonte do programa no link ao final do texto e verificar por si mesmos o algoritmo utilizado.
O resultado?
Rodei o programa dez vezes (ele leva em média 0.680 segundos para completar todo o processo de reconstrução da obra de Shakespeare) e obtive uma média de 16.155.784 (dezesseis milhões, cento e cinquenta e cinco mil e setecentos e oitenta e quatro) tentativas. Trata-se de uma fração quase infinitesimal das 79202070 possibilidades! Esses números dão a dica: O acúmulo, mesmo cego, tem um poder muito maior do que a intuição concebe. Que o digam os investidores de longo prazo e os evolucionistas!
Dirão que isto não prova o evolucionismo como verdadeiro. Ora, nem era este o objetivo, e sim desbancar a idéia de que o evolucionismo pode ser desbancado por uma simples concepção errônea das probabilidades envolvidas. Mesmo assim, ainda há quem possa julgar as mais de dezesseis milhões de iterações necessárias para gerar Hamlet um número excessivo. Trata-se de outro equívoco. Por vezes esquecemos que, por mais improvável que seja ganhar na mega sena, alguém sempre ganha!
Por fim, está claro que o ponto de vista proposto pela evolução não é do mero acaso, mas sim do acúmulo de acasos. Para se ter um exemplo, basta olhar para sua vida hoje e para como ela era há 10 anos para perceber o poder do acúmulo de minúsculos eventos ao longo do tempo. Podemos também utilizar as girafas como exemplo. Se observarmos o processo evolutivo de um ponto passado e em direção ao futuro, nos perguntaremos como a girafa, ou mesmo um processo “cego e guiado pelo acaso” como a evolução “sabia” que um pescoço cada vez maior lhe seria vantajoso? A própria pergunta faz com que tendamos a inserir implicitamente um propósito, uma finalidade oculta em todo o processo.
[1] Conforme http://surge.ods.org/listarc/20020621.HTM acessado pela última vez em 13/05/2011.
[2] Versão online de Hamlet disponível no endereço http://shakespeare.mit.edu/hamlet/full.html
[3] Código fonte disponível aqui.

Carlos,
Um erro muito comum das pessoas é jogar uma hipotese contra outra hipotese.
Até que se prove qual é verdadeira, nenhuma das duas está errada(nem correta,claro).Todas as hipoteses devem ser analisadas e questionadas, para que, talvez chegarmos a verdade real e inquestionavel(assim como aconteceu com o formato da terra, ou qual erra o real centro do universo, que hoje a resposta é obvia e muitos não percebem que já foi motivo de discussão e até mortes).
Tiago,
As hipóteses são tudo que temos para entender a realidade. A própria ciência é composta por hipóteses. A diferença é que perduram como “verdadeiras” as hipóteses que resistem aos testes de falseabilidade. Quando usamos as palavras “real” e “inquestionável” devemos sempre lembrar que estas só valem para dentro do nosso “aquário” (usando a analogia que você viu no outro texto) e não temos como saber o quanto nosso aquário distorce ou não nossa visão do que é efetivamente Real.
No cotidiano, esta distinção parece inútil, mas no meio filosófico (meio do qual surge a metodologia científica) ela é fundamental.
Abraço e obrigado pela participação.
legal!
eu ja fiz um programa e tenho aqui (escrito em MATLAB) q imita a evolucao por meio de reprodução assexuada.
se interessar, posso enviar.
abraço
Pedro,
Eu gostaria sim de ver esse programa. Você tem como disponibilizar o link? Se preferir, pode enviar por e-mail no carlos at leitecommangafazmal.com.br.
Abraço e obrigado pela visita.