Prove. A palavra ressoa desafiadora em nossos ouvidos. Quantos vezes já não fomos obrigados a provar o que quer que fosse? E o que fizemos então? O que pode ser aceito como prova cabal de que algo é verdadeiro, consequentemente taxando tudo aquilo que o contraria como falso? Mesmo que haja uma definição universal de prova, como podemos prová-la verdadeira? Método científico? Ele é incapaz de estabelecer como verdadeira uma frase tão simples quanto “o método científico é verdadeiro” pois toda e qualquer prova iria supor como verdadeiro aquilo que se está tentando mostrar como verdadeiro, em um legítimo raciocínio circular.
Para se provar qualquer coisa, portanto, é preciso antes de uma suposição inabalável e absolutamente correta sobre a qual possamos alicerçar todas as nossas demais crenças. Essa verdade absoluta precisa ser suposta e não pode ser provada, pois toda a prova deverá supô-la como verdadeira. Se a ciência permite um conhecimento legítimo e verdadeiro da Realidade, então precisaremos aceitar a metodologia científica como uma suposição dogmaticamente correta e infalível. Mas se é este o caso, por que postular como verdadeiro o metódo científico de gerar conhecimento e não outro qualquer como a reveleção sobrenatural? Princípios lógicos? Mesmo eles precisam ser cridos e não podem ser provados. Como se prova logicamente que a lógica é fiel ao que é Real? Vem a calhar aqui o bom e velho exemplo das contas matemáticas (que derivam da lógica): Como provar matematicamente qual de duas contas erradas está “menos” errada?
Stephen Hawking, em seu livro “The grand design”, utiliza o exemplo do peixe dourado no aquário para demonstrar essa miserável limitação humana. Devido ao formato do aquário – do qual o peixe jamais pode sair exceto pela morte – o peixe enxerga tudo de uma perspectiva diferente da nossa. Raios de luz retilíneos lhe apareceriam tortos e as formas que ele enxergaria seriam verdadeiras bizarrices para nós. No entanto, isto não o impediria de ter uma ciência que lhe fosse própria. Ele poderia calcular a trajetória do tal raio de luz e poderia ter uma geometria muito peculiar que lhe permitisse compreender – seja lá o que se compreende por isso – seu mundo. Ele seria capaz de adquirir conhecimento cumulativo e cada vez mais preciso sobre seu mundo, mas seria também incapaz de perceber que, na verdade, sua visão do que é real está sendo distorcida por um aquário. Inevitável questionar-nos: E se nós mesmos estivermos presos em um aquário?
É bem possível que estejamos. Como saber? Nossas crenças, que fundamentam nossos conhecimentos e, sejam eles científicos ou não, não podem provar, visto que são incapazes de sair do aquário. Como saber se a realidade tem mesmo três dimensões? Ou quatro? Ou doze? Ou duas, sendo a teceira apenas ilusória? Ou mesmo sete, sendo que duas delas são ilusórias e as outras cinco são reais, mas das três que enxergamos, todas são ilusórias? Não se trata aqui de avanço científico: Não temos como saber se estamos avançando em direção à Verdade ou em direção à ilusão. Pascal concordaria que podem haver demonstrações verdadeiras e condizentes com a Realidade, mas se o são, não temos como saber.
Para que possamos compreender melhor os pontos fortes e fracos da mais recente investida de Plantinga, precisamos ter o acima exposto bem compreendido. Plantinga, para quem não conhece, é um professor de filosofia relativamente famoso por trazer a crença em Deus – o teísmo – a um nível novamente respeitável no meio filosófico. Ao menos esta é a opinião de muitos dos que com ele concordam. Plantinga adotou uma postura intelectualmente combativa ao materialismo e ao ateísmo. Porém, ele o faz de forma muito diferente de alguém como o teólogo William Lane Craig, que parece utilizar-se de uma artimanha muito comum no meio acadêmico brasileiro: Falar asneira com convicção. A postura de Plantinga inclui elaboração de argumentos que visam, em geral, demonstrar a irracionalidade do materialismo, objetivo do argumento que abordarei aqui, e também demonstrar a racionalidade da crença em Deus – o que é diferente de querer provar racionalmente a realidade de Deus – fazendo uso, por exemplo de sua versão modal do argumento ontológico.
Este é um ponto importante a compreender em Plantinga, pois é um dos pontos fortes de seus argumentos: Eles não visam estabelecer nenhuma verdade dogmática. Plantinga acredita sim, em Deus e ele tem sim um dogma a seguir. Porém, seus argumentos no âmbito filosófico, ao menos até agora, não buscaram de forma nenhuma estabelecer dogmatica e racionalmente a verdade absoluta daquilo em que Plantinga acredita e sim demonstrar que crer naquilo que ele crê pode ser tão racional e irracional quanto acreditar em qualquer outra coisa. Isto é algo duro de engolir para os cientistas e os neo-ateus, pois Plantinga está certo. Porém, somente no sentido de que um materialismo e um ateísmo dogmáticos são insustentáveis. Ele erra, no entanto, ao advogar que estes sejam impossíveis. Seu argumento não os refuta. Ao contrário, os torna irrefutáveis, o que não é novidade em se tratando de hipóteses metafísicas. Plantinga errará ainda mais se afirmar ser Deus uma certeza absoluta.
Em resumo, o argumento de Plantinga afirma que, se o evolucionismo é verdadeiro, então nossa capacidade de observar, analisar e de nos relacionarmos com o que é Real deve ser severamente questionada, visto que a seleção natural privilegia o que aumenta as chances de sobreviência e reprodução, em detrimento de uma capacidade de enxergar a realidade como ela realmente é. Num exemplo do próprio Plantinga: ao sapo não faz diferença se ele comer a mosca porque acredita ser aquilo necessário para algum processo de seu organismo ou se ele comer a mosca porque crê que se transformará em um príncipe encantado quando conseguir “acertar a mosca certa”. Ele come a mosca e sobrevive para se reproduzir, e é o que importa para a seleção natural.
Embora alguns possam objetar certos detalhes técnicos, de forma geral, o argumento de Plantinga é muito pertinente e mortal, mas não contra o materialismo e sim contra o materialismo dogmático. Não contra o naturalismo, mas contra o naturalismo dogmático. Em suma: contra toda forma de dogmatismo. Se somos, como creio, apenas corpos e viemos de um universo puramente físico que não pensa (se pensasse, seria Deus) como podemos pensar? Como podemos ter certeza de qualquer coisa se, no fundo, toda certeza não passa de um determinado estado físico? Uma sensação de certeza? É por isso que todo aquele que pretender ter qualquer tipo de certeza absoluta sem abertura à dúvida precisará postular um dogma anterior a todo e qualquer conhecimento. E este dogma, seja ele qual for, deve ser aceito sem questionamento.
É neste ponto que Plantinga afirma que, aqueles que crêem em Deus, não tem receios quanto à veracidade daquilo que vêem e sentem, pois se a Realidade é um espírito, algo que pensa, sabe, quer, ou seja, Deus e se ele nos fez à sua imagem e semelhança, presumivelmente nos deu a capacidade de conhecimento. É neste ponto que Plantinga sai de seu próprio argumento, passando a apresentar uma versão elaborada de Deus que seria capaz de fugir ao problema do naturalismo imposto pelo evolucionismo. Evolucionismo, aliás, que Plantinga vê como uma espécie de “processo Divino” guiado por Deus para que cheguemos até aqui e, quem sabe, partamos para algo melhor. De forma tão miserável quanto os materialistas, no entanto, ele nada pode fazer para provar que estas suas crenças são tão ou mais verdadeiras do que as crenças materialistas.
Ao sair do âmbito metafísico em que enquadrou seu argumento, Plantinga voltou para o aquário de nossa realidade (e não Realidade). Ele pode sim, hipotetizar à vontade sobre o que há lá fora, mas se quiser hipotetizar aqui dentro, terá de seguir as regras do jogo, especialidade da ciência. Por mais que se sinta à vontade para supor que, quem acredita em determinada coisa não precisa se preocupar com este ou aquele problema filosófico, isto não eliminará, de forma nenhuma, todos os problemas filosóficos enfrentados pela crença em Deus. Se assim fosse, porque ele precisaria de qualquer outro argumento que não este? Aqui, ele terá de fazer uso de nossa lógica limitada, de nossas crenças bizarras, de nossa irracionalidade e de nossa miserável e necessária convivência com a incerteza. Não que devamos deixar de pensar só pelo fato de não podermos alcançar a verdade absoluta. Ao contrário: Se tivéssemos acesso à ela, para que pensaríamos?
Aqui dentro, a ciência já mostrou a que veio e a ela pouco importa como são as coisas lá fora. De lá nada se pode saber. É este, aliás, o princípio do critério de demarcação definido por Popper. Tudo o que está no aquário está no domínio da ciência. Fora do aquário é terra sem lei.

Bom texto. Vou refletir sobre ele melhor.
Carlos,
Este texto me fez refletir muito.
O seu exemplo do aquario é semelhante a uma conclusão que meus amigos e eu chegamos: Não há sobrenatural, há o sobrehumano.
A capacidade de refletir nos engana, gerando uma sensação de não haver limites ao raciocinio.Porém assuntos como “eternidade” estão além da nossa capacidade.
Eu creio que a verdade sobre o mundo está ao nosso lado, mas nossos limites nos impedem de enxerga-lo.
Belo texto.
“Mas se é este o caso, por que postular como verdadeiro o metódo científico de gerar conhecimento e não outro qualquer como a reveleção sobrenatural? Princípios lógicos?
De certo modo, o nosso mundo intelectual tem adotado a opção de que a ciência é o único verdadeiro triunfo do pensamento. No entanto, sabemos que a ciência é, antes de tudo, um processo e não um acabamento. Há sempre a esteira do “vago” e do impreciso, a desafiar o pensamento científico. A ciência tal qual a conhecemos, não nos fala do que é impreciso e flutuante.
Não podemos deixar de lado o nosso lado irracional. Existe algo, que por fugir ao âmbito de nossa consciência, nos influencia. O nosso mundo psíquico não é um laboratório onde os fenômenos são depurados, isolados, controlados ao bel prazer e à vontade do experimentador. O impulso de esquematização peculiar do cientista se perde ao tentar escalar os valores íntimos da subjetividade humana. A intricada e complexa malha dos nossos modos de vida, onde tudo é fluido e vago, impede que as idéias científicas encerrem uma determinada realidade psíquica dentro de sua rede de medidas.
Os administradores da instituição científica, guardiões do que é “verdadeiro”(?), deixam sempre fissuras em sua muralha vertical de ciência acabada. Ma o que é verdadeiro para ela, é um julgamento em nome da lógica universal, que não abarca o extenso campo espiritual do indivíduo. A ciência ainda não pode fazer enunciações acabadas sobre o que o homem percebe como sobrenatural, pois, apenas adentrou a porta do gigantesco labirinto, que é a sua alma. Talvez, quem sabe, no espírito científico possa estar embutida uma reação à própria maneira de crer do homem frágil e desconectado do conhecimento científico.
Não resta dúvida de que, principalmente no mundo ocidental, o pensamento humano obstinou-se em conquistar a precisão. Faz parte de nossa evolução, o querer traduzir a fluidez dos nossos afetos profundos em dimensões e medidas das grandezas. Mas como disse Bacon: “ o espírito humano é muitas vezes tão desajeitado e tão mal controlado no decorrer da invenção, que fica primeiro desconfiado de si mesmo, e em seguida desdenhoso (rsrs)
Abraços,
P.S.: Desculpe a empolgação, que me fez sair do escopo do seu inspirado texto. (rsrs)
Levi,
Fico contente em ter você comentando por aqui.
Eu até entendo sua idéia de que a ciência não tem condições de abranger o “campo espiritual” do indivíduo. O que não entendi em sua afirmação é isto: O que você entende por esse “campo espiritual” que menciona? Uma percepção? O inconsciente humano? Uma substância física? Uma substância espiritual “transcendental”?
Você pode desenvolver melhor a idéia?
Abraços!
Entendo que na nossa vida de relação em suas inúmeras atividades não está só concentrada ou dirigida a partir da consciência. Jung dizia: “quanto mais capazes formos de nos afastar do inconsciente por um funcionamento dirigido, tanto maior é a possibilidade de surgir uma forte contraposição, a qual quando irrompe pode ter conseqüências desagradáveis”.
Lacan, dizia: “ Tudo em nós é linguagem”.
A linguagem é estruturada no simbólico. A palavra dos nossos pais nos estruturou nos primeiros momentos de vida. Tudo está guardado nesse porão desconhecido – “o inconsciente”. Quando o crente realiza o seu “gozo”, ele, de certa forma está se fundindo imaginariamente com seus pais, representados pela “imago paterna”, Bhrama, Deus, Zios, Alá, etc.
Não vejo como o campo da realidade possa deixar de ser invadido pelo campo imaginário. Esse campo simbólico, por não ser mais detido, é evidenciado pela linguagem, através do jogo das relações inter-humanas, de modo que, antes de ter uma idéia ou pensamento, algo dentro do homem estimulou-o a se exprimir daquela forma. A admissão de uma instância “inconsciente” vai desembocar automaticamente nessa pergunta:
“Será que sou, realmente, o que penso que sou?” (rsrs)
Abçs,